quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

9 - NOEL NO BAR - Natal 2016




Há em mim, desde sempre, um certo fascínio pelos pequenos bares. Presumo que isso tenha a ver com um certo conforto  físico e estético que proporcionam,  mas sem dúvida tem a ver com um outro tipo de conforto também, feito da possibilidade de alheamento do mundo que se deixa do lado de fora, ao entrar.

Tudo convida a isso já que, dentro,  quase sempre há uma combinação ideal de músicas tocando baixinho,  com os objectos perfeitos para o lugar. Os couros e as madeiras, os brilhos dos vidros e dos metais cromados, os amarelos polidos com primor, e um tipo de iluminação que torna indiferente se é dia ou noite, na rua. Tudo junto, e eis um espaço criado para ser colectivo,  mas com uma acolhida e um aconchego de recanto individual, onde cada um pode conviver ou apenas viver o seu momento particular – mesmo com vizinhos próximos.

Nesse dia, eu entrei fugindo do frio. Ignorei as mesas e procurei um lugar ao balcão que ficasse longe da porta. Acabei  por sentar-me  num banco alto, bem estofado, não muito iluminado e com ar de ser confortável. Em frente, dentro do balcão, além das prateleiras com garrafas de bebidas e copos, havia uma porção de velhas fotos em molduras escuras, e um  espelho aparentemente antigo, pintado com motivos muito elaborados dos anos vinte.

Podia ver  nele reflectida a penumbra ambiente do restante do bar nas minhas costas, e aos poucos, com os olhos habituando-se à luz mais velada, fui podendo ver os diversos recantos criados pela disposição das mesas e biombos baixos destinados apenas a dividir os espaços. E num desses, um sujeito vestido de Papai Noel, bebendo sossegadamente.

Enquanto pensava no que havia de pedir para beber, apercebi-me que havia uma quantidade considerável de copos  vazios na mesinha à sua frente, e  fiquei meio intrigado com o insólito da situação. Quando o barman se aproximou, pedi-lhe um conhaque quente, e acenando para trás com a cabeça, na direcção do Papai Noel, perguntei se era cliente habitual.

-Não, senhor. É a primeira vez que o vejo por cá. Quando chegou vinha com muito frio, e parecia meio triste. Mas agora parece já estar bastante bem…
Olhei o espelho com mais atenção, e realmente o Papai Noel parecia em óptimas condições. Na verdade, talvez tivesse percebido que estávamos falando sobre ele, pois tinha-se levantado e encaminhado para o balcão, agarrando-se ao banco junto do meu.

Sendo baixote, gordinho e  já de idade, subir para aquele banco alto  depois de ter tomado várias bebidas não ia ser tarefa fácil.  Mas acabou perguntando se me incomodava sentando-se ali, eu respondi-lhe que não, e num instante ele estava ao meu lado no balcão.

-Isso é conhaque?- perguntou, apontando para o meu copo, em formato de balão.
-Sim, quentinho!
-Ah! Eu não tive coragem de pedir um! Fiquei-me  pelo ponche quente, que é docinho - e eu sou muito guloso. Creio que todos os velhos são meio gulosos…

Eu ri-me. Era simpático, o velhote. Tinha a sensação de já o conhecer.

-Eu sou  guloso, também!
-Ah, mas você ainda é jovem. E ser guloso é mais do que apenas gostar de coisas doces.
-Não me diga! É mesmo ?
-Claro que é! Ser guloso é deixar de lado a bebida que realmente nos apetece para beber uma outra só porque é doce.
-Bem… Não sei que diga! Nesse caso ainda não sou guloso… Continuo a beber o que me apetece. – brinquei.
-E faz muito bem, meu jovem! Talvez o tempo um dia venha a mudar isso. Ou talvez não. Mas há uns momentos em que qualquer pessoa precisa de ser um pouco complacente consigo mesmo. Precisa dar-se um mimo, um presente, ou fazer algo por si mesmo que lhe traga prazer. Nós somos feitos de pequenos prazeres.
-Hummm… Acho que posso concordar com isso! Vou dar-me mais um pequeno prazer! – aproveitei e fiz sinal ao barman para trazer novo conhaque. Era aromático, suave, e estava quente na medida certa.
-Isso, isso! – riu-se o Papai Noel ao meu lado. Vejo que  já entendeu o espírito do que eu disse. Eu vou tomar mais um ponche bem quente, também. Por favor…
O garçon aproximou-se trazendo a minha bebida, e discretamente falou com ele.
-Senhor, claro que posso trazer mais um ponche. Mas já tomou vários, em pouco tempo…
O velhote riu-se, bem disposto com a preocupação do outro.
-Ah, mas não há problema nenhum! É uma das vantagens de se usar um trenó. As renas sabem o caminho para casa !

O barman e eu rimos junto com ele.

-Não se preocupe, meu jovem. Pode trazer-me mais um ponche, por favor!
Enquanto o homem se afastava, eu comentei com o Papai Noel:
-Ele é um bom profissional. Preocupado em ser correcto e em fazer a coisa certa.
-Sem dúvida, sem dúvida! Gostei de ver que se preocupava. Hoje é raro ver as pessoas preocuparem-se com as outras.
-É verdade!
-Talvez por isso haja tanta infelicidade por esse mundo. As pessoas não se preocupam com os outros. Só querem saber de si mesmas…
-Realmente! Ninguém parece importar-se muito…
-Não importam, não! Se você, meu caro, soubesse as coisas que me pedem!... São coisas formidáveis, mas cada um pede para si mesmo. Não para outra pessoa, mesmo que ela precise.

Comecei a olhar o velhote com outros olhos.

-E as crianças ? – perguntei
-Ah, bem… As crianças são crianças. Pedem para si mesmas, também, mas depois emprestam aos amiguinhos, trocam,  dão, perdem. As suas coisas mudam de dono, ganham outros destinos.   Mas são generosas, as crianças…
-Pedem coisas difíceis ?
-Bem, às vezes pedem coisas impossíveis. E pedem coisas para os adultos, mas que, vendo bem, são para elas.
-Desculpe, não entendi!
-Como posso explicar? Às vezes não pedem coisas de presente. Pedem para os pais não discutirem, para se darem bem. No fundo querem estar bem, em casa. Portanto estão a pedir um presente para eles mesmos…
-O que não deixa de ser bonito, da mesma forma! – acrescentei eu.
-Sem dúvida! Claro que é muito bonito. Mas é difícil, porque depende das pessoas, não do Papai Noel.
-Deve ser difícil lidar com isso… - disse eu, pensando nos ponches que ele já tinha bebido.
-Sim, não é fácil! - respondeu, com simplicidade. Depois ficou em silêncio, algo absorto. Senti que a nossa comunicação estava a perder-se, e apressei-me a perguntar:
-Já é Papai Noel há muito tempo ?
Ele olhou para mim como se não entendesse a pergunta. Depois deu um sorriso e assentiu com a cabeça.
-Parece uma vida inteira, meu jovem!
-Trabalha nestas grandes lojas de departamentos, aqui no cimo da avenida ? Eu creio que já o vi lá, sentado num cadeirão e tirando fotos com as crianças no colo…
-Sim, nessas também.  Veja bem… Aqui entre nós: - Eu sou o verdadeiro Papai Noel!
-Ah! Entendo! – disse eu, olhando  pelo espelho para os vários copos vazios que ele abandonara na mesinha antes de vir conversar comigo. Com isso, ele deve ter percebido minhas dúvidas.
-Mas  vou a outras lojas também, um pouco por toda a parte. E também faço visitas a domicílio, principalmente à noitinha. Quase todas as grandes lojas contratam pessoas para fingir que são o Papai Noel, e brincarem um pouco com as crianças…
-Pois é! – disse eu. – E o senhor é um dos contratados, todo os anos, não é verdade ?
-Sim, isso mesmo! Desses papais Noel todos que se vêem por aí nas lojas, sempre há um que é o verdadeiro. Sou eu! Deixo-me  contratar para poder estar com as crianças e saber quais  são os seus sonhos e os seus desejos. Para poder escutá-los e dar-lhes esperança de que os seus sonhos se realizarão, entende, meu jovem ?
-Bem, creio que sim! Mas, e quando não é época de Natal ? – perguntei – Claro que não fica desocupado…
-Desocupado, eu ? Nunca ! Sempre há tanto que fazer! Mil coisas para preparar duns anos para os outros. Cartas para ler, fotos para assinar, listas de desejos…
-Listas de desejos ? As crianças entregam-lhe listas de desejos ?
-Não! Essas são principalmente dos adultos! E não desejam pouco, não! Sempre querem riquezas e poder, e coisas que lhes darão conforto. Viagens, carros, casas, jóias, dinheiro, coisas assim. Desejam sem limites,  e Papai Noel é que tem de resolver tudo. Quando ele não consegue, dizem que Papai Noel é coisa de criancinha, que não existe, e que só os muito inocentes e crédulos é que acreditam nessas histórias…
-Por isso faz falta um ponche quente, de vez em quando, não é ? É preciso coragem para ir lá para fora, e encarar toda essa gente que só sabe pedir…
-Sabe que é isso mesmo, meu rapaz ? O pior de tudo é saber que nem acreditam em mim, e que pedem sem acreditar. Quando consigo dar-lhes o que pedem, então sim, dizem que fui eu, e fingem que acreditam. Quando não consigo, eles dizem que não existo e ainda se riem daqueles que acreditam, chamando-lhes tolos…
-Compreendo! Realmente, nessa hora um ponche faz falta!
-Faz sim, meu rapaz. Mas hoje já abusei do ponche, e está na hora de ir trabalhar. Foi um prazer conhecê-lo. Talvez possamos encontrar-nos mais vezes aqui neste barzinho!
-Claro! Quem sabe? Gostei muito daqui, vou voltar mais vezes. Foi um prazer conhecê-lo também!

Trocámos um abraço e o velhote saiu, apressado, depois de agradecer e pagar a conta. Eu fiquei mais um pouco, pondo os pensamentos em ordem e preparando-me sem pressas para sair. Foi quando vi uma luva de Papai Noel caída no chão, junto ao meu banco.

Vesti o casaco rapidamente, e ainda fui às pressas tentar apanhá-lo lá fora, mas não consegui. Então, acabei subindo a avenida até às grandes lojas onde eu sabia que ele iria estar. E já havia uma grande quantidade de crianças que o aguardavam em frente do cadeirão onde ele iria sentar-se, mas ele ainda não estava presente. Deixei a luva com um funcionário que me disse que ele tinha chegado e saído de novo, procurando uma luva que tinha perdido pelo caminho.

Regressei ao bar para apanhar algumas coisas que lá tinha deixado. Quando entrei vi imediatamente um presente em cima do banco que eu usava ao balcão, com um pequeno cartão entalado debaixo do laço. Dizia apenas:  

“Permita-me um gesto de amizade. Este era o presente que desejou oferecer a sua esposa. Aqui está, como recordação do Papai Noel”.

Desta vez, pedi um ponche quente, em homenagem ao bom velhinho.


CopyrightHenriqueMendes/2016


sábado, 9 de janeiro de 2016

8 - NATAL de 2015 BOLINHA DE ÁRVORE DE NATAL




Ontem, eu estava colocando a iluminação na árvore de Natal.

Ainda não estamos em Dezembro, a árvore já está ficando pronta, e eu ponderava exactamente a respeito de toda esta antecipação, que pode até ser vista por alguns como sendo um exagero, principalmente por se tratar de uma casa sem crianças.

Foi nesse momento, que o fio eléctrico das pequenas  lâmpadas coloridas, mais grosso que o dos outros enfeites mais delicados, soltou do seu lugar uma linda bola prateada, grande e muito brilhante, que foi caindo pela árvore abaixo e provocou uma avalanche de pequenos enfeites coloridos que já estavam instalados.

Claro que não foi uma tragédia. Talvez até me tenha dado oportunidade de refazer melhor alguns dos detalhes e de tornar mais belo ainda aquele conjunto que, pelo menos a meus olhos, sempre tem uma beleza que me surpreende e sempre ultrapassa o que eu antecipo.

Optei por fixar o mais difícil primeiro e instalei sólidamente a iluminação. Depois, com todo o cuidado, peguei na grande bola prateada e voltei a pendurá-la na árvore, num lugar que me pareceu acolhedor e seguro para ela.

Na sua superfície prateada, muito brilhante e lisa, o reflexo distorcido das agulhas do pinheiro natalício formava desenhos esverdeados, salpicados de pontinhos brilhantes. E podiam ver-se também manchas azuis das fitas próximas e de outras bolas, e as minhas mãos mexendo-se pareciam provocar na superfície curva da grande bola uma sugestão de movimento.

Sendo esférica, parecia rodar sobre si mesma. E tornou-se inevitável, mesmo à minha mente distraída, a comparação com o nosso planeta. E quanto mais pensava nisso, mais a semelhança se tornava notável. Os oceanos a azul, a verde os espaços verdes. Branquinha na parte superior, reflexo do tecto da sala. E muitas luzinhas por toda a parte, reflexo das pequenas lâmpadas e dos seus reflexos noutras bolas da árvore. Parecia o nosso planeta, realmente.

E era tão grande a semelhança, que me afastei um pouco da árvore e me sentei por uns momentos no outro lado da sala, olhando para ela com atenção.

Claro que tinha sido uma coincidência – ou talvez não, não importava muito – mas aquela bola que caíra tinha feito com que eu olhasse com mais atenção para a árvore enquanto um todo, e depois com mais minúcia para os seus detalhes. E nessa semelhança que agora lhe encontrava com o nosso planeta, nasciam raciocínios inevitáveis sobre como tudo se encontra interligado, e como todos dependemos de coisas que nos são comuns.

Achei pequenas as manchas verdes na bola, e lembrei-me do desmatamento e da redução da superfície vegetal no planeta. Fiz paralelos com os aumentos da seca, e lembrei-me dos muitos milhões de pessoas que vivem sem água de qualidade, e de outros milhões que vivem já sem água quase nenhuma. Há poucos Natais, isso não era assim.

Depois lembrei-me de represas contendo resíduos venenosos, desabando e destruindo, na passagem de suas lamas, coisas que nos são fundamentais à sobrevivência. Matando no imediato, e contaminando para o futuro. E tudo numa dimensão gigantesca, com um alcance que ninguém previu e que põe em causa os modelos de controlo que temos.

Fiquei mais tempo do que esperaria, sentado no meu sofá, e olhando aquele planeta que bem vistas as coisas, cabe naquela bola da minha árvore de Natal. Estarrecido, vi como se erguiam ao alto bandeiras criminosas evocando fantasmas e escondendo ideologias oportunistas, sem esperanças de ganhos reais, apenas vontades de infligir perdas.

Olhei mais tempo, e vi guerras disfarçadas de religião. Vi negócios, na escassez em que deliberadamente são mantidos os empobrecidos, vítimas  duma História que alguns tentam reescrever sem o menor pudor, nem vergonha, nem sentido de verdade.

Não vi problemas insolúveis. Vi toda uma casta de políticos desnecessários, burocratas oportunistas sobrepondo-se à humanidade, absurdamente corruptos e muito distantes da vida real - que é feita de suor e dificuldades, mas também de superação, sobrevivência e de uma grandiosidade que, na sua maioria, eles desconhecem.

O que vi foi um planeta inteiro sendo mobilizado, motivado  para entrar em guerra outra vez, em vez de incitado a canalizar as suas forças para a tarefa perfeitamente possível que é o bem estar de todos. Não consegui abstrair-me do exemplo da bola de Natal. È evidente que em todos os erros e derrocadas há a oportunidade de corrigir e melhorar.

E por fim, regressei à minha árvore de Natal, ali na minha sala, feita com tanta antecedência.

A grande bola prateada que me faz lembrar o nosso planeta continua vacilante. Mas vou fixá-la  melhor para que não haja uma nova derrocada que arruíne tudo o que foi feito antes.

De qualquer forma, a árvore de Natal, assim com esta antecedência,  já fez algo que é precioso para mim: - deu-me um tempo de reflexão que acho ser cada vez mais necessário, sem pressas nem pressões, e no qual eu posso tentar distinguir o certo do é errado. Onde posso separar o que realmente é verdade, daquilo que é a verdade conveniente. Escolher entre o que realmente são os meus valores,  e os valores que querem que eu tenha.

Com esta antecedência tenho ainda tempo para pensar, e chegar ao dia de Natal liberto de tudo o que não quero para mim. E no fim do dia 24, quase à meia noite, provávelmente haverá adultos indignados com o barulho que vou fazer à janela. Vou agitar umas campainhas, bater com as mãos na mesa imitando o galope das renas e gritar “ Hou… Hou… Hou… Feliz Natal !!! “


Tenho a certeza que algumas crianças me entenderão, independentemente da idade que tiverem, ou da língua que falarem os seus pais.


Natal de 2015 

7 - NATAL 2014 EL SEÑOR MANUEL




O Señor Manuel viu quando chegaram.  O cavaleiro rápidamente  deixou  o cavalo  amarrado na pequena rua lateral e subiu os degraus até à loja. Quando abriu a porta, trazia na mão um envelope de papel muito branco. Era a resposta de Don Alberto, que aguardava ansiosamente.

No dia anterior, Don Alberto e a sua esposa tinham vindo fazer compras à sua loja. Tinham comprado muita coisa, muitos enfeites e muitos presentes, e Don Alberto  fizera questão de comprar coisas simples, mas de boa qualidade. Pela primeira vez, os meninos da Hacienda  iam celebrar o Natal e receber a visita do Bom Velhinho, e ganhar os seus presentes.

Tudo isso porque o menino Josellin, filho de Don Alberto e Doña Guadalupe, acreditava que a única razão de o Bom Velhinho nunca ter ido visitar a hacienda era porque os meninos não sabiam escrever e, portanto, nunca tinham escrito as suas cartas fazendo os seus pedidos de presentes. Agora, D. Alberto queria corrigir isso, e queria começar uma nova tradição: -Celebrar sempre o Natal na fazenda com uma grande festa, com muita alegria, muita comida, e muitos presentes, enfeites e todas as coisas típicas da época natalícia.

O Señor Manuel ficara encantado por ter feito  um negócio tão grande, e fascinado com a história daquele menino que, na sua inocência, estava já a mudar para melhor a vida de tantos outros meninos, que que moravam num lugar tão ermo e tão distante.

Pensando acerca disso, perguntava a si mesmo se não haveria nada que ele pudesse também fazer por essas pessoas menos afortunadas quando uma ideia começou a germinar na sua cabeça. Gostou do que pensou e  rapidamente escreveu a D.Alberto, falando-lhe da sua sobrinha Rosarito. 

Mandara a carta pelo peão Tomás, junto com o seu melhor cavalo, e ele cavalgara o dia inteiro para levá-la e trazer a resposta. Era ele que agora chegava, com uma carta de papel muito alvo nas mãos morenas.  Tomás entregou-lhe a carta num gesto sentido, emocionado. Não conhecia o conteúdo, mas podia sentir que era uma coisa importante.

“-Aqui estaá a resposta, Señor Manuel!”“-Gracias, Tomás! Deves estar cansado. Anda, vai comer alguma coisa y descansar. Amanhã fica com os teus filhos e a tua mulher, não precisas vir trabalhar. Hoje foi um dia muito duro, mas amanhã só cuidas do Blanquito.  Portou-se bem, o Blanquito ?”

Por um momento, os dois riram-se  do cavalo completamente negro a quem alguém  por brincadeira resolvera chamar Blanquito ( branquinho ).

“-Sim, Señor! É um bom cavalo. Cuidarei bem dele hoje e amanhã Señor. Boas noites!”
“-Boas noites, Tomás. Obrigado!

Finalmente só, e com as mão tremendo um pouco,  Señor Manuel abriu o envelope. A resposta à sua própria carta era concisa e curta, mas era tudo o que esperava e queria.

“Prezado Señor Manuel,
Lemos com muita atenção a sua carta, minha esposa e eu,   sobre a sua sobrinha professora, que devido a sua dificuldade em movimentar-se nos transportes públicos, não pode exercer a sua profissão. 

Foi realmente um acidente lamentável esse, que matou os seus pais e a deixou sem poder trabalhar e vivendo com o Señor e a sua família. Mesmo recebendo algum subsidio do governo para poder manter-se, não poder trabalhar  faz qualquer pessoa infeliz, por isso entendo completamente a sua preocupação em ajudá-la.

Temos na hacienda um  celeiro antigo que, com algumas reparações, poderia ser usado como escola para alfabetizar as crianças.  Mas há que pensar em custos e, por isso, aproveitei a oferta do seu peão Tomás para que, com outro cavalo,  levasse carta minha aos donos de mais duas “haciendas” vizinhas, que me responderam que os meninos dessas suas fazendas poderão também frequentar a escola aqui, e que dividiremos os custos entre todos.

Igualmente, eles como eu, agradecem a sua ideia, e as soluções que ela traz a todos.

Poderemos combinar mais detalhes passadas as festividades, mas  considere desde já que a sua sobrinha vai poder ajudar muita gente, se estiver disposta a vir viver aqui na fazenda. Casa onde morar, gente para ajudá-la e o que comer, não lhe faltarão nunca.

De salário  poderemos falar directamente com ela. Felicito-o pela sua idéia, e saÚdo-o uma vez mais pelas festividades.

Feliz Natal, Señor Manuel. “


Emocionado, o Señor Manuel terminou a leitura e pensou na sua sobrinha, tão preparada, tão pronta a ajudar os outros, e tão limitada pela sua cadeira de rodas.


Guardou a carta dentro de um outro envelope, no qual escreveu o nome dela. Ia coloca-lo junto do pinheiro de Natal em sua casa. 

Seria o seu presente para ela.


Henrique Mendes / revisada


6 - NATAL 2013 BONECO DE LATA



Eu vi quando, antes de sair, ele ficou olhando aquela reprodução duma velha foto em que eu, cliente habitual, nunca prestara atenção. Era uma ampliação enorme, que fora transformada na logomarca da casa. E ele era um homem negro, bem vestido, mas com simplicidade.

Já o tinha notado quando ele entrara e fora directamente para trás do balcão e ficara conversando simpaticamente com o empregado do pequeno bar em que eu me encontrava. Pouco depois colocara um avental e começara a lavar uns copos enquanto, com um gesto discreto, apontara na direcção da sala e fizera com que  o empregado recolhesse toda a louça que havia nas mesas, e que já era desnecessária.

Acabei  pedindo mais  um café quando este me abordou, perguntando se podia levar a chávena vazia. Notei que estava um pouco nervoso.

-É o patrão ? –perguntei
-É sim, senhor ! – e voltou para o balcão, atarefado.

Pouco depois, de o patrão ter saído, aproximou-se sorrindo, para continuar o assunto

-E ele fica lavando louça, assim ? – admirei-me
-Ele gosta ! – respondeu desconcertado. - Sempre faz isso, quando aqui vem. Confere as contas, vê se está tudo bem, se é preciso alguma coisa, e depois vai-se embora. Mas sempre atende algum cliente, ou lava louça, ou faz algo assim. Ele e a irmã hoje são donos de uma rede enorme de pequenos bares como este, junto a estações, ou a rodoviárias.
-Ah é ? -  perguntei só para dar seguimento à conversa…
-Sim, senhor! Nada de muito luxuoso, como vê. Apenas  pequenos lugares agradáveis onde se pode descansar um pouco, ou marcar um encontro com alguém, ou comer uma pequena refeição simples e baratinha.
-Parecem gente boa!
-São sim, senhor. Diz-se que passaram dificuldades, quando eram crianças. E que trabalharam muito para conseguirem ter alguma coisa. São muito humanos.

Outros clientes chamaram a atenção do empregado, que foi  atendê-los. A minha recaiu sobre a foto da logomarca, na entrada. Havia nela alguma coisa vagamente familiar. Passado um pouco, o empregado regressou com uma foto de tamanho normal, que me mostrou.

- Esta é a mesma foto, sem ser ampliada ! – disse – Os donos fazem questão que a mostremos a toda a gente que se mostre interessada na foto do logotipo. Dizem que um dia  alguém verá essa foto e se lembrará deles.

Olhei a foto. Eram dois meninos negros rindo, um de cada lado de um boneco  feito com um pequeno  tambor de lata, ferrugento. Sorri das suas expressões de felicidade intensa. Num instante, a minha memória recompôs tudo.

O gorro do boneco era feito com um saco de cimento sujo com barro vermelho, que custara a ficar em pé para a fotografia.

Os olhos, tinham sido improvisados com duas páginas de agenda, recortadas em redondo, e duas tampinhas pretas das caixas dos rolos de fotos.

A boca tinha sido desenhada a carvão, aberta, rindo muito.

Depois tínhamos feito furos com um prego e colocado pequenos pedaços de corda desfiada, com um nó na ponta, de dentro para fora, e ficara uma barba razoável, mais cerrada de um lado do que do outro, mas ainda assim uma barba…

E, no final das contas, ficara  um boneco que os garotos tinham adorado apesar daquele ar de poeira suja, do vento e da fome que havia naquela aldeia remota, lá em Africa, perto duma estação  ferroviária incongruente, onde ninguém se apeava, nem ninguém subia, e onde um mato ralo crescia no meio dos trilhos…

“-Quem é esse?” - tinham perguntado.
“-Esse é o Pai Natal!”- respondi, rindo com eles
“-Na minha terra chamam-lhe Papai Noel…”- dissera o meu colega brasileiro.
“-E na minha, chamamos-lhe Santa Claus! “ – acrescentara Ramón, que falava espanhol.
“-Tem três nomes…”
“-Ih…tem muitos nomes…Mas é sempre o mesmo! Aparece sempre neste dia, para trazer presentes para as crianças.”

Os garotos pareceram confusos. Não sabiam o que eram presentes…

“Comida! “ – expliquei  prosaicamente. E então eles riram muito…

E foi assim que eu e mais dois colegas acabamos dividindo alguns mantimentos com esses dois garotos, que teimavam em nos ajudar, e fazendo uma espécie de jantar com eles. Era 24 de Dezembro, e a noite ajudava a não ver e a conseguir esquecer toda aquela miséria na aldeia, além do círculo de luz da fogueira. 

Tinha surgido a brincadeira do Pai Natal, e na sequência dela o jantar ganhara, para nós,  o simbolismo de uma ceia.

Um dos meus colegas, ao saber que não tinham pais, deu-lhes algum dinheiro. Disse-lhes que era suficiente para apanharem o próximo trem que passasse e irem para uma cidade grande, longe dali. 

Eles riam tanto do boneco barbudo, estavam tão felizes tagarelando na sua língua nativa um com o outro, que duvidámos que tivessem entendido. Tiramos umas fotos, que mais tarde fizemos chegar ao chefe da estação, para que lhas encaminhasse.

Agora, ali no bar, tantos anos depois, o empregado contava-me a história daquele patrão insólito, eu olhava a chuva lá fora, pensava naqueles meninos de uma véspera de Natal tão distante da minha vida de hoje, e recordava-me de uma consoada improvisada feita junto de uma estação poeirenta.

O empregado ia falando, e eu fui sabendo como todos os anos, na véspera de Natal, eles abriam as portas e serviam um jantar muito simples, gratuito, a quem quisesse comer. E recordava o homem negro que vira entrar e sair, que afinal era o dono de uma rede de pequenos bares que existia em vários países, junto às estações.

Identificava nele aquele menino da foto, ao lado daquele boneco de lata com barba de corda, rindo muito com a irmã num lugar poeirento de África, quase sem esperança, num dia em que alguém lhes dera  razões para rir.

Olhei novamente a logomarca, com outros olhos. Dizia:  Pai Natal – Café.

Fiquei com a certeza que, nos outros países onde existiam, os pequenos bares não seriam nada diferentes daquele. Apenas o nome mudaria um pouco, talvez.

Mas estaria também escrito junto da mesma foto ampliada que agora eu já reconhecia, de um boneco de lata com barba de corda e uns olhinhos pretos, redondinhos, feitos com  tampinhas de caixas de rolos de fotografias….


Henrique Mendes/2013

5 - NATAL de 2012 O Banco do Sr. Schluss.




Tal como sempre acontecia, o Natal aproximava-se a toda a velocidade.

O frio já se fazia sentir, as últimas folhas tinham caído das árvores, e as noites chegavam cedo, como que num convite às pessoas a recolherem-se cedo, e a abandonarem as ruas. Tudo se virava para dentro de casa e o conforto do lar.

As iluminações típicas da quadra, eram apenas o suficiente para torná-las um pouco menos inóspitas e faziam com que, independentemente do clima,  a ideia de festividade e de  coisas boas em casa, sendo  partilhadas com a família, fosse a todo momento lembrada e estivesse presente em todos.

Aqui, apesar do frio, toda a gente parecia estar satisfeita, menos  o Sr. Schluss,  do banco. E ele sabia muito bem porquê, O Sr. Schluss:  - ele tinha detetado uns errinhos aqui, outros errinhos ali, outros errinhos acolá, nas contas dos clientes do seu banco ! Coisinhas insignificantes, sem dúvida, mas quem julgavam que ele era, hem ? Ele era um profissional de primeira ! Ele não ia nunca deixar passar uma coisa daquelas. Jamais !

Então o Sr. Schluss  pegou no telefone e ligou para o seu colega de um outro país, para saber mais detalhes do que se passava.

-Keys? É você ? Daqui é Schluss, como vai ? Feliz Natal para você também obrigado !... Sim, sim, obrigado…para você também!  Olhe, Keys, eu preciso pedir-lhe uma informação. Tenho vindo a notar que as contas dos meus clientes mostram pequenas compras feitas com cartão aí no seu país. Valores muito pequenos, quase insignificantes….coisinhas de nada…Quase todos eles, sim… sim…muitos !Como?...Você também?...E são compras feitas aqui no meu país? Pelos seus clientes ?

Do outro lado, o Mister Keys foi respondendo que sim a todas as suas perguntas.  A surpresa foi tão grande que o Sr. Schluss  até deu um salto e ficou em pé. Depois, perturbado,  desligou sem agradecer e ligou para um outro colega de um outro país.

LeClef! Aqui é Schluss! Sim ! Sim, claro, Boas Festas para si também, obrigado! Ah, sim para a minha sogra, claro ! Obrigado, obrigado, para a sua também. Mas LeClef…E para a esposa, isso! Ah sim! A torre da igrejinha, claro…branca...Sim, claro...Muito bonito, sim !... Isso, LeClef…. Isto é urgente, LeClef… Mas…. me escuta… sim ! Sim LeClef ! Diga-me uma coisa então: - Estive a falar com o Keys e ele está com o mesmo problema que eu. Nas contas dos clientes dele aparecem muitas compras feitas com cartão. Valores muito pequeninos, quase insignificantes, coisas que mal se notam, mas em quase todas… e são todas compras feitas no estrangeiro, ou em cidades onde os clientes nunca andaram recentemente.  Você já ouviu falar de alguma coisa assim ? O quê ? Você também ????? Mas então as coisas estão muito complicadas,  o problema é geral !!!  Obrigado, LeClef ! Boas Festas!

O senhor Schluss ficou muito tempo sentado olhando pelos vidros da janela sem chegar a nenhuma conclusão.  Por todo o lado, pequenas compras de valores muito pequenos haviam sido feitas com cartão, e agora os donos dos cartões negavam tê-las feito. E ficavam furiosos quando o banco insistia em cobrar.

Os funcionários do banco simplesmente não  conseguiam que os clientes concordassem que tinham feito compras tão estranhas, e de valor tão baixo em lugares tão diferentes. Recusavam-se a pagar - E o banco não queria de maneira nenhuma ter problemas com os seus clientes tradicionais por valores tão pequeninos, é claro! Por isso, ele não insistia e tratava tudo como se tivesse sido um erro do banco. Mas ele, Schluss sabia que não era!

E agora que falara com os seus colegas dos outros países, e sabia que eles estavam enfrentando o mesmo tipo de problema, ele sabia que não ia ser fácil de resolver. Por isso estava tão apreensivo.

Podia ver pela janela muitas entregas chegando ao bairro pobre, na parte mais baixa da cidade. Resolveu saír para a rua para ver melhor, estranhando o movimento,  e cruzou-se com um grupo de crianças, já não muito pequenas, que o cumprimentaram sorridentes: “-Olá Sr. Schluss ! Boas Festas ! “.  Depois sorriram, e entre risos saíram correndo…

Ficou meio desconfiado a olhar para eles, como se algo não lhe soasse bem, mas sem ser capaz de identificar o quê. Sería que noutro lugar do mundo outras crianças cumprimentavam o  Chávez, e o Keys como o estavam a cumprimentar a ele, assim com aquele ar excessivamente santinho ?

Seria que as crianças tinham alguma coisa a ver com aquilo ? As crianças, com a sua internet, e os seus laptop e os cartões de créditos dos seus pais….Seria possível ? Hummm...

Olhou um grupo de crianças que pulava e ria e, no meio delas, o seu próprio filho, que brincava, já a caminho de casa, com o seu pequeno computador novo debaixo do braço.

Então ele teve a certeza  de que não precisava procurar mais explicações, e de que já conhecia  as razões pelas quais tudo tinha acontecido. Iria chamar os pais das crianças, explicar-lhes que não se tratava de erro do banco, nem de quebra de segurança nas contas deles, mas que tinha sido uma maneira de os seus filhos quererem endireitar o mundo, sem saber que é preciso mais do que um grande coração para se ser Pai Natal.

Como o exemplo era muito bonito, iria propôr às lojas, aos pais e ao próprio banco, que dividissem os custos envolvidos de maneira a que as pessoas necessitadas pudessem conservar os presentes que já tinham ganho e ter um Natal mais Feliz.

Olhou para o seu filho subindo a rua, ainda em passinhos curtos de jovem desajeitado, e sorriu satisfeito, já antecipando nele um homem de bem, que se revelava até no que fazia de errado.


Na parte baixa da cidade continuavam a chegar encomendas de cores vivas trazendo coisas de Natal, provocando gritos à criançada. A neve recomeçou a cair mansinha. Não tardariam a aparecer rastos de trenó!

"Hou ! Hou! Hou!", disse baixinho o sr. Schluss.


4 - NATAL de 2011 BATATA !




Todos os anos, nesta época, costumo visitar uma cidade  relativamente próxima e regressar só no fim do dia. E todos os anos tenho encontrado  um personagem curioso, abusado, vestido de Papai Noel, que, de uma forma ou de outra, sempre encontra uma maneira de  me importunar, seja pedindo-me alguma coisa, seja  apenas falando sem parar.

Noto que as pessoas o evitam com um sorriso, fogem da sua irreverência algo desmedida, da sua voz trovejante e da falta de limite das suas palavras.

No dia em que o vi pela primeira vez,  o garçon acabara de perguntar-me  o que queria para acompanhar o bife que encomendara, se arroz, se batata, e eu respondera: “Batata!”.  Foi então o Papai Noel  chegou de repente, sentou-se à minha mesa, e disse que queria a mesma coisa, sorrindo sempre, olhando alternadamente de mim para o garçom, até que eu acabei  por concordar.

Afinal, dentro de alguns minutos eu sairia dali num ônibus e não voltaria a vê-lo. Podia perfeitamente pagar-lhe uma refeição decente.

O garçon afastou-se,  e foi então que ele se apresentou. Estendeu para mim uma mão muito suja, que hesitei em apertar, e disse com um sorriso alvar onde faltavam dentes:

-Muito obrigado, estou com uma fome de leão ! E deixe-me aproveitar para apresentar-me: - Eu sou o Papai Noel !  Você, eu já sei: - é o Batata !
-Hem ?  Não... Que é isso ???  Eu sou o...
-Batata !

Não adiantou espernear. Fiquei sendo o Batata.

E nos anos seguintes, naquele mesmo barzinho sempre meio vazio, enquanto como alguma coisa durante o tempo de espera pelo ônibus, sempre acabo encontrando Papai Noel. E sempre acabamos comendo juntos e conversando, de tal maneira que o garçon, aquele cretino  – que hoje já é outro, cretino também – me trata por Dr. Batata, e sempre coloca dois lugares à mesa.

E sempre  Papai Noel chega vindo do nada, nas mesmas velhas roupas surradas, de bolsos enormes, ruidoso, espalhafatoso, sujíssimo. E  já várias vezes perdi o ônibus, e acabei tendo  de tomar um outro mais tardio, por conversarmos tanto. Mas nunca o interroguei a respeito de ele ser ou não Papai Noel, e ele nunca disse nada menos condicente com o personagem que representa há tanto tempo.

Este ano, entretanto, decidi finalmente intrepelá-lo. Talvez até entrevistá-lo. Porque não ?

Assim, estava já sentado à mesa quando escutei nas minhas costas o seu vozeirão poderoso, falando em espanhol  “- Eres tu, Batata ??? ”

Sorri por dentro, e a força que tive de fazer para não o deixar perceber esse sorriso, a minha alegria por  reencontrá-lo, deu-me  a dimensão exata da ansiedade com que eu aguardava este nosso encontro. Levantei-me e abracei o meu velho amigo Papai Noel.

-Si ! Yo mismo ! Pero ahora hablas español ? – perguntei, olhando-o no rosto muito escuro, contrastando com o cabelo muito branco.
-Es que asi no necesitas traducirme! Verdad ? - o seu sorriso  era  desconcertante.
-Ah...Já sabes que este ano quero fazer da nossa conversa uma entrevista?
-Claro !
-Mas como sabes?
-Tinha que acontecer, mais cedo ou mais tarde. Sempre percebi  isso, nas perguntas contidas, que não te atrevias a fazer...E há coisas que um velho Papai Noel sabe por instinto...Digamos que são privilégios da velhice...
-Acho que eu fui muito transparente...
-Ah, sim...muito ! – riu ele.
-Mas então, se és mesmo Papai Noel, porque nunca me deste um Presente de Natal ?
-Hum...vejamos...Quantas pessoas conheces aqui nesta cidade?
-Aqui na cidade não conheço ninguém. Só tu!
-E eu não sou daqui. Eu apenas te procurei, te ofereci a minha mão e a minha companhia.
Eu ri-me, divertido.
-Companhia que foi  jantando ás minhas custas, estes anos todos !
-Bem...Isso foi um detalhe, só para tua satisfação pessoal ! Ficaste feliz, por achares que me podias perfeitamente pagar uma refeição decente. Não foi ? Confessa, vá...
-Bem… Sim, isso é verdade...
-Então, aí está...Eu fui o teu presente, todos estes anos! Entendeste ?
-Bem...Sim, mas...
-Entonces….Vamos a cenar, hombre ! Podemos falar enquanto comemos.
-Está certo ! Não deixa de ser verdade. Confesso que estou um pouco desorientado...
-Acalma-te !  Pergunta o que quiseres...
-Bom, diz-me o teu nome, então...
-Santa Klaus !
-Ah não !  Assim não !  Tu és negro !
Ele parecia surpreendido.
-Sim !  Desde niño  ! Faz tempo, isso !
-E onde está o trenó, que eu nunca o vi ?
-Bem, sabes...É muito difícil de usar aquilo sem neve...
-Mas o teu trenó voa ! Não precisa de neve...
-Hummmmm...Chega aqui...

Aproximámos as cabeças, por cima dos pratos.

- Consegues mesmo acreditar nisso ? E mesmo que fosse verdade,  já viste como está a situação dos aeroportos? hein ??? Filas de dar medo...

Fiquei sem respostas. Entretanto, a comida chegou. Fomos comendo quase  em silêncio. Num estacionamento  vazio ali perto, um grupo de garotos estava sentado no chão, sem fazer nada. 

Então, sem interromper o que me estava dizendo, Papai Noel  levantou-se, abriu a janela e tirou do bolso uma bola de tênis amarela, novinha em folha.  Deu um grito para os meninos e atirou-a na direção deles, lá para fora.  Depois sentou-se de novo, e continuou comendo e conversando.

Em pouco tempo a criançada lá fora já jogava um jogo impossível de descrever, com uma bola amarela e improvável. Ele ria, olhando para eles, enquanto conversávamos sobre outras coisas. Aos poucos voltávamos à entrevista.

-E as renas? – perguntei suspeitoso. – Como se chamavam as renas?
-Bobi !
-Bobi ? – repeti eu escandalizado – Mas isso é nome de cachorro!
-Ah é ? – perguntou ele com um ar muito inocente…
-Claro que é ! O que aconteceu com Rudolpho e as outras , hem ?
-Não sei, nunca as vi ! Quando assumi o cargo aqui, já então não havia renas. Ouvi falar de um churrasco, há muito tempo...
-Churrasco?  Mas isso é uma loucura ! Isso é coisa que se diga?
-Calmate, hombre. No sei se é verdade. Mas nunca as vi.

Comecei a entender tudo. Ele não era o Papai Noel.  Só de nome...

- Entendo...E para as tuas deslocações usas...
- Ah, um velho furgão da Ford, de quem ninguém suspeita, eh eh eh !
- E o que aconteceu ao célebre  "HOU, HOU, HOU" ?
- Isso é só mesmo quando há meninos por perto, claro. Ninguém se ri assim, não achas ?
- Bom, isso é verdade... Mas...e o saco dos presentes...Também não usas, é claro !
- Saco, saco...não uso. Mas olha o tamanho dos meus bolsos... Muito mais práticos. E hoje em dia os presentes também são muito menores que dantes.  É um pendrive para uma pessoa. É uma caneta bonita para outra. Uns brincos com uns brilhantes. Um alfinete de gravata...Uma lingerie mais sexy...
- Hein ? – Eu mal acreditava em meus ouvidos. Estava chocado! – Mas isso não são coisas que se possa dar às crianças.  Crianças gostam de brinquedos, bicicletas, carrinhos, bonecas, coisas assim...!
- Nááá!...Eu prefiro os adultos...É uma questão de lógica. Se ajudares os adultos, eles vão dar melhores presentes às crianças. Se eles estiverem felizes, com o espirito certo de Natal, eles vão  levar o Espirito de Natal para suas casas e ensinar às crianças o Espirito de Natal...e isso é o que importa. Não achas ?

Eu fiquei sem saber o que dizer, perante aquele papai Noel negro, sujo, de quem era amigo e com quem jantava hà tantos anos sempre no mesmo lugar, que nunca vira renas nem trenó, e que se achava ele próprio o meu presente de Natal, apesar de jantar sempre às minhas custas.

Minha cara devia traduzir a minha surpresa, porque papai  Noel riu-se  e disse-me: 

- Não fiques assim, chocado comigo. A vida é como é. E não é mais do que apenas um sonho, tal como  resolvemos sonhá-lo. Enquanto  houver espaço no teu sonho para um Papai Noel  com um saco ás costas, descendo pelas chaminés e distribuindo presentes para os meninos - vai ser assim mesmo ! Enquanto houver espaço para um trenó puxado por Rudolpho e as outras renas, guizos soando na noite, e um trenó mágico, voador, que não precisa de neve e voa pelos ares rumo ao Polo Norte, onde fica a fábrica de brinquedos de Papai Noel – não será de outra forma, nunca...

Eu olhava para ele, sentindo que algo importante estava acontecendo ali, naquele momento, e então ele continuou:

-Mas pode ser que, um dia, só caiba no teu sonho um Papai Noel mais simples, menos mágico e mais humano, que não chegue a tantos lugares. Que talvez nem voe pelos ares, num trenó, mas que  tente ajudar aqueles de quem se aproxima, provávelmente só com pequenos gestos:  um pouco de companhia; uma bolinha barata para os meninos pobres; um saco de comida para os cachorros de rua; qualquer coisa que talvez nem seja um sonho muito grande.  Pode ser um Papai Noel branco, negro, mestiço, de qualquer cor – não vai fazer diferença nenhuma. O Natal é só um dia, no ano. Mas um sonho é um gigante que não morre nunca.

Então, súbitamente,  Papai Noel  levantou-se.  E de um dos seus bolsos tirou uma caixa que me entregou.

-Agora tenho de ir-me ! – disse.- Este ano, que é o meu último ano como Papai Noel,  houve espaço no meu sonho para trazer-te um presente. Quem sabe se no próximo ano haverá espaço no teu sonho para usá-lo ?

Abracei o meu velho amigo, e virei-me procurando uma mesa sobre a qual abrir o presente que me oferecera.  Quando voltei a virar-me para ele, ele já tinha partido, sem que eu me apercebesse. Voltei a olhar o presente. Em cima da mesa estava uma roupa completa de Papai Noel, novinha e brilhante, com um cartão que dizia: “-  As botas compras tu, tá ? “

A minha risada soou um pouco alta demais.  Entretanto, o garçon aproximara-se da janela e ria-se também. Os meninos do estacionamento tinham interrompido o jogo e assistiam a um fogo de artifício que vinha de um velho furgão Ford estacionado lá ao fundo, ao lado de uma árvore de Natal que estava toda iluminada.

Fui á janela também para assistir, e a criança que ainda há em mim maravilhou-se com as luzes e as cores, e principalmente com as risadas das crianças e das pessoas que passavam...

E não vi nenhum trenó, mas juro que escutei uns guizos que não esperava. E, por cima de tudo aquilo, uma inesperada risada de "HOU ! HOU! HOU !" pareceu pairar nos céus por sobre toda a cidade.

Voltei a olhar a roupa. Depois dei por mim a pensar:

”- No próximo ano, quem sabe???”                         



Henrique Mendes / Dez 2011    Revisado